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terça-feira, 1 de novembro de 2016

HISTÓRIA  DO DISTRITO DE MARTINSLÂNDIA
Autor: Prof. Fabiano Martins

                                                                        Introdução
  Martinslândia é um distrito de Guaraciaba do Norte, que se localiza a uma distância de 22 km da sede do município, que se ergue a uma altitude de 862 m acima do nível do mar. É um distrito cujo território vive, aproximadamente, umas 3000 pessoas. A via de acesso principal se dá pela CE – 192, seguindo por uma estrada de carroçal. É banhado pelo riacho, popularmente conhecido como Ipuçaba.
  Os habitantes do distrito de Martinslândia desfrutam de um clima agradável, embora haja uma oscilação de temperaturas significante no verão. As estações são bem definidas: inverno e verão. É uma área cercada de morros, pouco verde no verão e razoavelmente no inverno.
Vista Aérea
  O solo não é favorável a plantações contínuas, devido aos lajeiros que impossibilitam o desenvolvimento de culturas que necessitam de maior quantidade de água. A grande maioria das terras férteis estão preenchidas com a horticultura, principalmente tomate, pimentão, beterraba, cenoura, maracujá e batata-doce. E durante o inverno predomina a agricultura de subsistência, onde as culturas principais são de feijão, milho e mandioca.







Origem
Primeiras famílias
  O território onde hoje se localiza o distrito de Martinslândia, anteriormente, ou seja, no princípio de sua trajetória histórica era somente mata nativa, sem vestígios de habitações fixas de grupos indígenas, mas supostamente alguns representantes dos índios Tabajaras passaram por essa região, posteriormente podendo até ter tido o cruzamento desses indígenas com pessoas brancas, negras ou pardas, porque é evidente a descendência indígena nesse distrito.
  A presença negra também se faz sentir na constituição da população, sendo visível a afrodescendência. A origem é obscura, mas segundo entrevistas e relatos, a probabilidade de serem provenientes do Maranhão, Piauí e sertão cearense é muito grande. Inclusive, o pai do fundador da localidade, João Martins Ribeiro, segunda sua filha Juraci Martins Melo, foi proprietário de uma escrava doméstica, a Negra Chica, que ajudou cuidar de seus filhos e se mostrava bastante exibida e cheia de vontade, até o dia em que levou uma surra muito grande.
  Inicialmente o povoado era denominado Espinhos, devido à enorme quantidade de plantas espinhosas que existia no local, quando foi no final da década de 1980, no governo de José Elisiário de Melo Nobre passou a se chamar Martinslândia (lugar dos Martins), em homenagem a família Martins que é bastante numerosa.
  O outro motivo foi porque seus precursores são provenientes da família Martins, inclusive o patrono do distrito João Batista Ribeiro, que embora não tenha o sobrenome, mas é da família e um dos homens que mais trouxe reconhecimento para o nome Martins. Foi cogitado também o nome de Vila Nova. O nome “Martins” é originário do latim e, significa guerreiro.
  Martinslândia a partir da lei municipal n° 531 de 3 de junho de 1992, durante o governo municipal de Dr. Egberto Martins Farias passa a ser sede do distrito, que abrange também Rancho do Povo, Estivado, Pequimagro, Espinhos I e Espinhos II.
  Em seus primórdios essa região, onde se encontra o distrito pertencia somente a quatro donos, Januário Dino do Paudólio, que atualmente é conhecido como Córrego, Antonio Carreiro dos Espinhos I, João Bezerra e Antonio Bel no Rancho do Povo e João Batista Ribeiro em Martinslândia, que na época era Espinhos. As principais atividades econômicas era a agricultura e a pecuária, sendo João Martins Ribeiro, um dos maiores pecuaristas da região.
Enterro Maria da Silva Melo
Eram pouquíssimas casas no local. O destaque era a casa grande do dono da terra, geralmente com alpendre na frente. As pessoas de fora que iam chegando em busca de trabalho e sustento, onde alguns destes estavam fugindo da fome, saindo da região da Mancabira, atualmente pertencente a Croatá, e do sertão cearense, construíam a mando dos donos da terras casinhas de taipa , onde as camas era feitas usando forquilhas e esteiras. Mas algumas pessoas chegavam nesse povoado de pessoas acolhedoras, se apossando das terras que estavam sem uso, por lá permanecendo e criando seus filhos. Os donos das terras também as vendiam, como acontece até hoje.
  O período que mais chegou pessoas na localidade foi durante a seca de 1932, uma seca que assolou o Ceará inteiro, dizimando muitas famílias em todo o estado. Mas em Espinhos, atual Martinslândia, também morreu muita gente de fome, principalmente crianças. Os alimentos principais de algumas famílias era a garapa da cana e o mingau de farinha.
Os primeiros moradores de Martinslândia foram Antonio Cosmo, Leocádio, José Mendes Martins, Antonio Tarcísio Gonçalves, José Raimundo da Silva (Zé Pedra) e Manoel Coruja.
  A divisão dos terrenos era feita pelos agrimensores, que usavam os chamados marcos para demarcação. Mas provavelmente diante das mesmas com certeza aconteceram algumas confusões, pois na Várzea dos Espinhos, distrito vizinho, segundo alguns estudiosos do assunto, quando se procura resgatar a história local, certas pessoas se recusam a prestar informações e muitas da vezes o pesquisador é até hostilizado, devido problemas com terras no passado.
João Batista RIbeiro
 
João Batista Ribeiro, Fundador da Localidade
  João Batista Ribeiro nasceu no dia 29 de agosto de 1905 em Espinhos, atualmente distrito de Martinslândia, no município de Guaraciaba do Norte, neto de Manoel Martins e Vitalina Martins e filho de João Martins Ribeiro e Francisca Bezerra, os quais se conheceram no estado do Pará. Dona Francisca Bezerra nasceu no município de Lavras da Mangabeira. João Batista Ribeiro teve sete irmãos, Manoel Martins, Francisco Martins, José Martins, Luís Martins, Joana Martins, Maria Bezerra e Amélia Martins.
2° esposa
  No decorrer de sua vida casou-se duas vezes, primeiro em 30 de setembro de 1931 com dona Maria da Silva Melo, com a qual teve 15 filhos, 6 mulheres e 9 homens, mas 5 crianças morreram e se criaram dez, Juraci, Beatriz, Antuniza, Leonardo, Luís, José, João, Aldair, Cícero e Francisco. Dona Maria da Silva Melo faleceu e depois de certo tempo João Batista Ribeiro casou-se novamente com dona Maria Bezerra Nobre no dia 30 de setembro de 1983, não tendo filhos com a mesma.

2º esposa
  Grande homem, bondoso e solidário. Era bastante brincalhão, adorava dançar, muitas das vezes saía da sua casa de cavalo com destino a região da Macambira, hoje pertencente à Croatá, somente para prestigiar as festas e dançar. Aos domingos ele organizava as tertúlias, festas dançantes ao claro da lamparina, a qual se estendia, às vezes até de manhã. Seu hobby preferido era trabalhar na agricultura e cuidar da sua criação de gado (bois, ovelhas, cabras, etc). Segundo sua segunda esposa, dona Maria Bezerra Nobre não se zangava com nada, mas era bastante verdadeiro, ou seja, quando queria falar alguma coisa para alguém falava mesmo, no entanto, tinha um coração enorme. Além de falar, também escrevia muito bem, sendo seu estudo provavelmente resultante dos momentos que estudou com professores particulares pagos por seu pai. Em seus terrenos tinham vários moradores.

O cotidiano do passado
 
  Os primeiros moradores do povoado eram bastantes conservadores para a atualidade. Os casamentos eram arranjados, muitas das vezes, a noiva nunca tinha visto o noivo e já teria que casar, obedecendo as vontades de seus pais. Era tradição as famílias não se misturarem com aquelas que as mesmas denominavam de estranhas, havia muito o casamento entre parentes. Conta um senhor que um rapaz chamado de João Carreiro saiu da região da Macambira em direção a localidade de Espinhos para olhar as filhas de um homem, que era seu amigo, chegando lá não simpatizou com nenhuma das suas três filhas, e falou o seguinte: - Bom, como eu já vi, eu vou me casar com a Josefa. E assim foi.
  Geralmente após o casamento a festa de comes e bebes se prolongava por dois ou três dias, mesmo depois do casamento, o noivo só recebia a noiva como mulher, propriamente dita, com 8 à 15 dias. Moça não namorava no escuro, caso acontecesse algo suspeito os pais da moça obrigavam o rapaz a casar. Interessante, que se o noivo descobrisse que sua noiva não era mais virgem, mesmo depois do casamento, a devolvia aos seus pais.
  As brincadeiras eram canções de roda, casamento oculto. As crianças, quando meninas brincavam com bonecas de pano ou até com sabugos de milho, já os meninos brincavam com boizinhos e carrinhos de madeira, carrinho de carnaúba, entre outros.
  As pessoas acreditavam demasiadamente em lobisomem, amortalhado, fantasmas e visão da noite, possivelmente devido à inexistência de energia elétrica que deixava a imaginação mais fértil.
Tocava-se violão, saxofone para animar as noites em volta das fogueiras, comendo milho verde, mugunzá, pamonha, toucinha na brasa e contando histórias ou estórias diversas. Conta-se que as festas aconteciam numa casa do povoado, onde colocavam azeite de mamona nas lamparinas e as atrepavam nas paredes para iluminar a sala de dança. Eram de destaque naquela época também as cantorias, recheadas de repentes.
  Era comum nas décadas de 1920 e 1930, quando morria alguém, enquanto fazia sentinela, ou seja, enquanto as pessoas estavam no velório, muitas das vezes chorando, o prego cantava na madeira, pois os carpinteiros caseiros estavam confeccionando os caixões com tábuas, isso quando a família do morto tinha certa condição financeira, se não, era velado numa cama de madeira ou numa rede e levado para o cemitério dentro da rede, sendo enterrado com a mesma. O enterro antes da construção do cemitério de Várzea dos Espinhos era feito no Ipú, em Guaraciaba do Norte ou na Matriz  de São Gonçalo da Serra dos Cocos, atualmente distrito de Ipueiras.
Curioso que quando morria algum indivíduo envenenado ou enforcado, isto é se suicidasse, o enterrava no mato, assim como crianças pagãs. Um dos grandes alfaiates da localidade na época, Seu Primeno, de origem desconhecida foi encontrado morto após ter se enforcado, contam alguns que a causa foi desgosto. Teve o destino de ser enterrado no mato.
Água encanada não existia. Antes se bebia água do rio, onde quando a mesma estava pouca abriam-se uma cacimba na margem para retirá-la.
Com relação às roupas de antigamente, as mulheres usavam vestidos longos, usavam véus para irem para igreja, panos ou tiras na cabeça para ficarem em casa. Os homens quase sempre estavam de chapéu, sendo os de palha para ficar em casa ou trabalhar e os de massa para o passeio. Tinha também os de couro que usavam mais para cuidar do gado na caantiga.
As pessoas mais pobres, principalmente filhos de moradores dos grandes proprietários tiravam croá nos matos para fazerem esteiras, surrões, cordas e outros instrumentos úteis para venderem no Ipú no intuito de ajudarem no sustento de suas famílias.
Antes da construção da capela na localidade, quando os moradores queriam assistir uma missa iam para Campo Grande, nome anterior de Guaraciaba do Norte ou para Matriz de São Gonçalo da Serra dos Cocos andando a pé ou de cavalo, se tivesse condições financeiras para isso. Aos domingos João Batista Ribeiro celebrava um culto em sua casa às duas horas da tarde.
Antes da construção da capela as coroações saiam da casa de João Batista Ribeiro, onde sua filha Juraci arrumava as crianças e a cerimônia acontecia na casa da dona Neuza Martins. As crianças coroantes ficavam em cima de mesas, devido a ausência de altares, obviamente.
Quando alguém ficava doente, geralmente se curava em casa com ervas medicinais, utilizando técnicas caseiras e rezas. As principais rezadeiras eram Virgínia, Joaquim Lopes, Emília Carreiro e Maria Mônica. Quando precisavam comprar medicamentos as pessoas tinham que se deslocarem até a venda de remédios de Edivar Melquide em Várzea dos Espinhos, caso não encontrasse tinha que ir procurar José Augusto em Guaraciaba do Norte ou ir ao Ipú. As mulheres tinham seus filhos em casa, sob os cuidados de uma parteira, com destaque para Chiquinha Rita, Rosa Manduca e Maria Alexandre, que inclusive pegou o autor desse histórico em Várzea dos Espinhos.
No que diz respeito a política, mulher não podia votar. Somente os homens detinham esse direito, sendo uma das principais características do voto de antigamente o voto de cabresto e a predominância do clientelismo. Um certo político já dizia, que era só jogar o milho e todas as galinhas corriam.
A primeira televisão da localidade foi de José Serina, o qual trouxe a mesma do Rio de Janeiro, a primeira antena parabólica foi do Aldair Martins de marca Tecsat, o primeiro computador foi trazido pelo diretor da escola Fábio Pereira quando veio trabalhar na comunidade. E a primeiro casa a possuir internet foi a de Antonio Venâncio, conhecido como Neto. Leonardo do Jorge (Lioso) foi o primeiro a possuir um carro, uma rural muita antiga para época e, a primeira moto foi de Francisco Martins. 
A construção da escola
 
  
Colégio anos 70
 A Escola de Ensino Infantil e Fundamental João Batista Ribeiro foi construída em 1974 mediante iniciativa do então prefeito de Guaraciaba do Norte, José Maria Melo que em visita a comunidade de Martinslândia, que na época ainda era simplesmente um povoado, pois tornou-se distrito somente em 1992, reconhece a necessidade de uma escola diante da precariedade educacional, onde as poucas professoras do local ensinavam em suas casas.
Colégio hoje
  Por ser uma localidade muito distante da sede do município e de difícil acesso, e de uma necessidade tamanha de desenvolvimento educacional e social para o povo, a população se mobilizou e juntando-se as lideranças comunitárias, educadores e políticos usando de bom senso chegaram a uma conscientização que a solução daquele problema seria com a construção de uma escola, e nomeando educadores para desenvolver a aprendizagem de um povo que vivia a margem de uma sociedade analfabeta e excludente, de certa forma sem perspectivas. E um dos fatores preponderantes para que a construção da mesma ganhasse impulso foi à proximidade das eleições partidárias, onde os políticos cobravam os agradecimentos do povo por meio do voto.
José Maria Melo
  A Escola de Ensino Infantil e Fundamental João Batista Ribeiro recebe esse nome em homenagem ao doador do terreno de 40 m², João Batista Ribeiro, que também é considerado patrono da comunidade, à prefeitura para construção da escola. Seus fundadores foram José Maria Melo, prefeito municipal da época, José Elisiário de Melo Nobre, pré- candidato do prefeito, João Batista Ribeiro, fundador da comunidade e as professoras Antonia Martins Ribeiro, Maria Saraiva Martins e Maria Gizelda Martins.

Quando a construção se impulsionou em 1974, teve como chefe de obras Raimundo Alexandre, oriundo de Sussuanha, distrito de Guaraciaba do Norte. Foram construídas somente duas salas, onde atualmente funciona a secretaria, desprovidas de banheiro.
  A primeira merendeira foi Juraci Martins Melo, a qual fazia a merenda na casa de seu pai João Batista Ribeiro, em um fogão à lenha. Os alunos levavam seus copos de casa padronizados com os seus nomes, pois a quantidade disponível era insuficiente, disponibilizada somente para os professores, os quais merendavam no alpendre da casa.
  A primeira diretora foi Antônia Martins Ribeiro, que além de ser responsável pela escola, ainda lecionava. Em 1987, Francisca das Chagas Bezerra assume a direção até 1989, nessa gestão foram construídas duas salas e uma cantina, chegaram pratos e copos para os alunos, além de material didático, embora muito precários. Foram contratadas mais duas merendeiras, Maria de Fátima e Maria dos Prazeres.
  De 1989 até 1993, a escola ficou praticamente sem direção, contando com o suporte de Maria Assunção Ribeiro, diretora da escola de Várzea dos Espinhos, até que Edmar Teixeira da Silva assumisse a direção na gestão municipal de Antônio Bezerra Marques, quando foram construídas mais duas salas.
1ª Professora
  Em 1996, assume Maria Dalva Bezerra, no governo Municipal de Assis Teixeira Lopes. Em sua gestão chegaram para escola televisão, videocassete, mimeógrafo, máquina de datilografar, freezer, antena parabólica e muitos professores passaram por formações. A escola acomodou o tempo de Avançar Fundamental e Médio, tendo como o melhor professor da Serra da Ibiapaba, nessa modalidade, Edmar Teixeira.
José Fábio Pereira assume de 2002 até 2003 a direção. Ano que Júlia de Menezes Ribeiro assume, gestão da qual chegam alguns armários na escola, tem início a formação do magistério para os professores, chamado de PROFORMAÇÃO, período no qual os alunos do Fundamental II, tiveram que estudar em outro distrito, em Várzea dos Espinhos.
No ano de 2005 assume Roza Maria Martins, a qual se mantém até os dias atuais, na gestão municipal de Dr. Egberto Martins. Em sua direção o Fundamental II volta para Martinslândia, a escola se torna uma escola polo, pela lei n° 889/2008, aprovada e sancionada pelo prefeito municipal Dr. Egberto Martins, foi instalado um laboratório de informática, a estrutura física da escola foi ampliada, foi feita a contratação de secretário escolar, coordenação pedagógica e capacitação para professores, conquistando vitórias diante dos projetos educacionais, além da chegada de recursos didáticos, audiovisuais e a entrada de recursos, como do PDDE (Programa Dinheiro Direto na Escola). Cabe destacar o trabalho da coordenadora Regina Célia Bezerra, que desenvolve um ótimo trabalho, a qual é uma figura carismática e símbolo da educação local.
  A escola adota os quatro pilares básicos da educação no século XXI, apontados por Jacques Delors, os quais são o aprender a conhecer, o aprender a fazer, o aprender a conviver e o aprender a ser. Pilares estes que escola os entende, os traduz e os complementa, favorecendo a construção de uma nova educação para a cidadania, através do uso de uma prática voltada essencialmente para a formação integral do aluno, buscando um ensino de qualidade e permitindo assim, a plena assimilação de conhecimentos e vivência de experiências ampliando suas potencialidades, resgatando e promovendo a formação de uma nova visão de ser cidadão,orientando-os nas relações interpessoais,através de vivências cooperativas,de respeito e igualdade que possibilitem a plena estruturação de valores éticos,críticos,solidários,sendo estes indispensáveis à vida em sociedade nos aspectos sócio-econômicos, étnico-culturais e cognitivos de cada faixa etária.
  A Escola de Ensino Infantil e Fundamental João Batista Ribeiro localiza-se na Rua Principal do distrito de Martinslândia, no município de Guaraciaba do Norte, Ceará. E atende em sua maioria filhos e filhas de trabalhadores rurais, ou seja, agricultores e horticultores, também de pedreiros, donas de casa, professores e outros. Esses alunos são provenientes, além do distrito de Martinslândia, no qual a escola se encontra, de povoados como Rancho do Povo, Pequimagro, Espinhos I, Espinhos II, Estivado e Lagoa Velha, que já pertence ao município de Ipú.
  A falta de refeitório, a falta de espaço para recreação e principalmente o acompanhamento deficiente dos alunos com necessidades especiais, pois faltam profissionais qualificados para esse fim, são as principais dificuldades da escola, no que diz respeito, ao atendimento à comunidade escolar.
A escola tem uma importância primordial para a sociedade, pois busca contribuir para a constante melhoria das condições educacionais da população, visando assegurar uma educação de qualidade aos seus alunos num ambiente criativo, inovador e de respeito ao próximo, valorizando a prática da cidadania e de igualdade nos aspectos político-sociais e étnico-culturais.
  Hoje a escola comporta, 558 alunos, destes são 83 na Educação Infantil, 214 no Fundamental I, 226 no Fundamental II e 35 na Educação de Jovens e Adultos.  A escola conta com 28 professores, 1 diretor, 1 coordenador pedagógico, 12 auxiliares de serviços gerais,1 porteiro, 2 vigias e 1 secretário escolar. E atende uma clientela de 1º ao 9º ano do ensino fundamental, além das salas anexas de educação infantil.  
  A escola é vista pela comunidade como o núcleo do distrito de Martinslândia, sendo o local de difusão de conhecimentos e valores humanos, além de protagonista dos eventos sociais que acontecem na comunidade, pois na escola se realizam mutirões de cidadania, palestras de relevância para comunidade, diversificadas apresentações artísticas e culturais. E a comunidade espera que a escola a cada dia aumente seu grau de atuação no distrito e povoados adjacentes, principalmente na orientação dos problemas dos mais diversos gêneros da população, pois os moradores locais depositam grande credibilidade a instituição, diante da boa vontade do núcleo gestor e educadores que estão a frente da escola prestar solidariedade a todos, no que diz respeito, a informação ou orientação, independente de ser aluno ou não, de ser pai de aluno ou não.
O Projeto Político Pedagógico (PPP) da Escola de Ensino Infantil e Fundamental João Batista Ribeiro, criado pelo Núcleo Gestor da escola, educadores, alunos, pais de alunos e demais funcionários a partir de discussões e análises profundas sobre a comunidade escolar se justifica da seguinte forma: somos educadores, como a maioria estamos preocupados com a tarefa de promover a aprendizagem e o desenvolvimento dos nossos alunos, valorizando a política do respeito. Sabemos da importância do nosso papel na construção de uma educação voltada para a cidadania especialmente na comunidade escolar na qual integramos. Por essa razão, não medimos esforços para superar as práticas educacionais baseadas na simples transferência de informações e conhecimentos.
  Para que a escola alcance seus objetivos, trabalhamos de forma desafiadora e interativa, a fim de fazer dos alunos protagonistas do processo de ensinar – aprender. Para isso, propomos atividades que incentivam a participação deles, em um processo de construção gradativa do conhecimento, no qual são respeitados os aspectos sócio-econômicos, étnico-culturais e cognitivos de cada faixa etária, e nos preocupamos em despertar neles a busca constante de meios para melhorar a qualidade de vida pessoal e coletiva, a consideração à pluralidade cultural e o desenvolvimento de atitudes de respeito, solidariedade, compromisso, trabalho coletivo e amizade.
  No entanto este projeto pode funcionar como elemento catalisador de ações na busca de uma melhoria da qualidade da educação da escola, onde atuamos. De modo algum pretendemos resolver todos os problemas que afetam a qualidade do ensino e da aprendizagem, mas nos empenhamos para melhorar.
  Portanto o Projeto Político Pedagógico é um documento norteador das ações da escola em todos os aspectos. E visa orientar Núcleo Gestor e educadores para formação de alunos preparados para a vida em sociedade.
A construção da igreja
1º Missa
  Existia um movimento na comunidade da Martinslândia no final da década de 1960 e no início da década de 1970, chamado de Cáritas Diocesanas, uma associação de 100 sócios, com sede em Sobral, supervisionada no município por Monsenhor Antonino, responsável pela paróquia de Guaraciaba do Norte. Na comunidade de Martinslândia João Batista Ribeiro comandava os representantes desta associação, era o 1º presidente, Maria Bezerra era a 2ª presidente, Neuza Martins era a coordenadora, Antonio Profiro era o secretário, Juraci Martins era a tesoureira e Giseuda Martins era a porta-voz. Os beneficiados com cestas básicas eram as famílias mais carentes. A associação chegou a construiu até uma casinha para uma família sem moradia.
  Foi a partir desta associação que foi construída a capela de Martinslândia no ano de 1976. Somente participavam da associação pessoas casadas na Igreja Católica, que trabalhassem para conseguirem fazer um salão, o qual posteriormente devido a pressão e argumentação de Juraci Martins Melo mudou para igreja. Francisco Martins, também filho de João Batista Ribeiro trouxe uma imagem pequenina da Virgem dos Pobres de onde era seminarista e resolveram torná-la padroeira da localidade. Posteriormente o mesmo pediu a um frei, cujo nome era frei Pascoal de Ipuarana na Paraíba uma imagem maior da Virgem dos Pobres, o mesmo atendeu ao seu pedido, veio da Bélgica diretamente para Martinslândia.
  No início a igreja não tinha sua pedra fundamental, mas depois a recebeu. Foi trazida pelo padre da paróquia e foi colocada debaixo da imagem da santa. A pedra na verdade não é uma pedra, mas sim um documento que é colocado dentro de uma garrafa, em nome da Virgem dos Pobres, lavrado no cartório de Várzea dos Espinhos.

1° Coroação
Depois da construção da igreja, o pároco de Guaraciaba do Norte, que era Monsenhor Antonino na época não queria batizar a capela, pois o mesmo queria que a igreja fosse particular e seus idealizadores, na representação de João Batista Ribeiro queria que fosse pública. Segunda a explicação de dona Juraci Martins Melo, uma das idealizadoras da capela, a diferença é que a pública todo mês tinha que ser celebrada uma missa e tinha que ter a festa religiosa da padroeira todo ano, enquanto a particular somente quando o padre quisesse.
  João Batista Ribeiro mandou uma carta para o bispo Dom Timóteo da diocese de Tianguá pedindo a benção da capela pelo bispo, o mesmo respondeu a carta se desculpando por não poder vir pessoalmente, mas ordenando que Monsenhor Antonino batizasse a capela como pública.
  No dia 27 de julho de 1976 aconteceu a benção e inauguração da capela da Virgem dos Pobres, diante de uma população animada e dando graças a Deus por ter uma igreja em sua localidade. Neste dia foi celebrada a primeira missa por Monsenhor Antonino. O primeiro casamento feito na capela foi de Raimundo Emídio e Francisca Teodoro. O primeiro batismo foi de Antonio Francisco, filho de Alzenir.
  Atualmente a igreja conta com a coordenação de Josimeire Martins e detém movimentos como Pastoral da Saúde, Pastoral do Dízimo, Grupo dos Leigos Comprometidos, Grupo Jovem, Grupo da Liturgia, Grupo do Cenáculo, Coral Jovem, Senhora e Criança, Ministério de Música, Grupo de Intercessão, Grupo de Oração, Grupo da Renovação Carismática Católica, grupo do Apostolado da Oração, Grupo de Dança, Grupo da Catequese, Grupo de Acolhimento, Grupo dos Coroinhas, Terço dos homens, das crianças e das mulheres, Grupo de Pregadores, grupo de Teatro, grupo dos Missionários, Grupo dos Ministros, Grupo do Terço da Misericórdia e Grupo do Rosário a São Miguel Arcanjo.
Cabe destacar também a importância de Marcelho Ribeiro como um dos principais responsáveis pela difusão da fé católica em Martinslândia.
Francisco Martins Melo
 
  Filho do glorioso João Batista Ribeiro o jovem Francisco Martins Melo, mais conhecido como Chico Batista foi um dos maiores contribuintes para a construção da igreja, inclusive foi quem conseguiu a imagem da Virgem dos Pobres, trazendo-a para a sua terra natal, e foi o primeiro comerciante do povoado. Francisco estudou o chamado primário na cidade de Canindé no Ceará, o ginásio em Ipuarana na Paraíba, onde conheceu o frei Pascoal, coordenador do convento onde era seminarista, objetivando tornar-se padre. E estudou o científico, isto é, o ensino médio na Bahia. Mas acabou se apaixonando e casou-se.



A história do Pinto Verde
 
  Segundo os relatos de alguns moradores o polêmico apelido é motivo de controvérsias e constrangimento para alguns moradores, tanto é que as pessoas do lugar dificilmente falam nisso, quem fala mais são as pessoas de fora, de outros distritos.
  A maioria conta que tudo começou durante o período de festa da padroeira da capela, Virgem dos Pobres. Não se sabe precisamente o ano, mas estava acontecendo um leilão após a missa, gritado como diz na gíria popular por Gonçalo Galvão, quando apareceu um pinto, filhote de uma galinha, pintado de verde, quem fez isso não se sabe quem, para leiloar.
   Chico Dino, que gosta muito de tomar sua cachaça começou espalhar a notícia e a chamar a Martinslândia de Pinto verde. Assim foi a origem desse apelido pejorativo, como coisa de bêbado.
Água em Martinslândia
 
  No dia 24 de agosto de 1999, o governo estadual através do Projeto São José, assinou convênio com a Associação Comunitária do distrito de Martinslândia para construção e instalação do sistema de abastecimento d’água para a comunidade de Martinslândia. A associação foi representada por sua presidente Roza Maria Martins.
Martinslândia recebeu água encanada, no entanto, a mesma não é suficiente para abastacer toda a população, sendo necessário, as pessoas pegarem até fila para pegarem água no chafariz público. Se pega água para o consumo também em uma cacimba que se localiza na saída para o povoado de Pequimagro. Já houve até casos de pessoas brigando por água.
  Mas recentemente foi cavado um poço profundo por intermédio da prefeitura municipal em Espinhos I com o objetivo de abastecer todo o distrito de Martinslândia. 
Martinslândia Contemporânea
   Atualmente Martinslândia é um distrito bem desenvolvido, contando com uma escola com profissionais bem capacitados e responsáveis, a Igreja Católica está reformada e repleta de movimentos religiosos. A festa da padroeira Virgem dos Pobres é no mês de setembro, comemorada todo ano, recebendo pessoas de todo o município, além de outros e de ex-moradores que estão residindo em outros estados, principalmente do Rio de Janeiro. A comunidade conta também com outras igrejas como a Assembleia de Deus Ministério Tempo Central e Ministério Fortaleza e Congregação Cristã do Brasil. Há uma religiosidade expressiva no distrito.
No que diz respeito à saúde, a população está bem atendida. O PSF (Programa Saúde da Família) local tem uma equipe completa, inclusive com odontologista.
  A comunidade dispõe de praça para lazer bastante freqüentada pelos moradores e principalmente pelos jovens no final de semana. O comércio é razoavelmente desenvolvido, com destaque para as casas que vendem material de construção e produtos agrícolas.
  No campo do esporte o destaque é o futebol, tendo dois times na comunidade o Internacional campeão guaraciabense da 2ª divisão e o Grêmio vice-campeão da 1ª divisão no ano de 2011.
  Quanto a político destaca-se na comunidade a figura de Roza Maria Martins, que se esforça com garra e determinação para tentar resolver os problemas locais. A qual também é diretora da escola, dirigindo a mesma com compromisso.
  A localidade também se orgulha pelos artistas que tem com destaque para o poeta, como o professor Fabiano Martins, a coreógrafa Jaqueline Martins e o escultor Antonio do Jota. Recentemente jovens vinculados a Igreja Católica gravaram um CD de músicas religiosas.
Enfim, Martinslândia é um excelente lugar para se viver, com pessoas acolhedoras, com excessão do grande barulho no final de semana, tarde da noite e de alguns jovens problemáticos com atos de vandalismo, mas no restante é calmo.
  Inclusive o autor é natural do distrito de Várzea dos espinhos, mas adotou a Martinslândia como sua casa, deixando esse legado da história do distrito para gerações futuras. 
Povoado de Pequimagro
 
  A origem do nome do povoado de  Pequimagro é bem hilária. Segundo os moradores mais velhos tudo começou devido um pé de Pequi, a qual era comum no local, pois tinha vários. No entanto, esse pé de pequi era diferente dos outros, quase identificável. Um belo dia passou um rapaz e disse bem alto “por que esse pé de pequi tem uns pequis tão magros?”. Desse dia em diante aquele local de pouquíssimas casas passou a ser chamado de Pequimagro.
  O Pequimagro, inicialmente ficava de uns lajeiros no fim da Martinslândia até a Favela Chata, que já é município de Ipú.
  Os terrenos pertenciam a João Batista Ribeiro e a sua família quando decidiram vender a outras pessoas, passando a aumentar o povoamento local. Destaque para João Profírio, o homem que tinham mais terra em Pequimagro.
Povoado do Rancho do Povo
  O primeiro nome do povoado de Ranho do Povo foi Rancho das Mangabas, devido a grande quantidade de mangueiras no local.
  Na época das missões, o atual povoado de Rancho do Povo foi visitado por frei Vidal da Penha, um padre capuchinho que andou pelos sertões do Ceará, Pernambuco e outros estados entre 1781 e 1820 fazendo pregações e profecias. Com a sua chegada foram construídas cabanas de palha, onde ele e muitas pessoas ficavam arranchados. As pregações se davam na Casa de Pedra, que as ruínas existem até hoje. Como a quantidade de gente era muito grande mudou de Rancho das Mangabas para Rancho do Povo.
  Na localidade não tinha escola. Os donos de engenho Antonio Bel e João Bezerra contratavam professores particulares, com destaque para o mestre Sebastião, para ensinarem seus filhos e, às vezes seus sobrinhos. Muitos anos depois os filhos desses alunos colocavam seus filhos para estudarem em Guaraciaba do Norte ou no Ipú, quando em 1974 surgiu a escola de Martinslândia e foram estudar na mesma.
Em 1982 Regina Célia Bezerra terminava o 2º grau normal e colocou uma escola particular na garagem de sua casa, tendo como alunos seus primos e seus próprios colegas. Sua irmã, Núbia Bezerra também era professora na época. Aprendiam o alfabeto cantando.
  No ano de 1984, o prefeito de Croatá, José Antônio de Aragão, visitando a comunidade junto com o vereador de Betanha, Chico Cesário viram a necessidade de uma escola no local. A visita foi feita por intermédio de Olesbão Bezerra, avô de Francisca das Chagas Bezerra, também professora concludente do curso normal.
  Pode-se ficar pensando por que os políticos de Croatá se interessaram pelo Rancho do Povo se lá era Guaraciaba do Norte? A resposta é que na época, a maioria dos moradores votavam em Croatá, e este município queria a posse do Rancho do Povo, mas perdeu na justiça e hoje é ainda, Guaraciaba do Norte.
Eles colocaram a escola em uma casinha isolada dentro das capoeiras com duas salas de aula e lá começaram a lecionar Regina Célia Bezerra e Francisca das Chagas Bezerra com turmas de multisseriado da educação infantil à 5ª série.
  A escola funcionou nesta casinha durante três anos até que o prefeito de Guaraciaba do Norte, na época Antonio Bezerra Marques com medo de perder todos os eleitores para Croatá, elaborou um projeto que consistia na construção de uma escola para o Rancho do Povo.
A escola tem duas salas de aula, uma sala dos professores com banheiro, um banheiro masculino e outro feminino, uma cantina com despensa e um pátio. O terreno que abriga a escola é de 40m², doado pelo proprietário Antonio Cláudio Bezerra. As primeiras professoras foram Regina Célia Bezerra e Francisca das Chagas Bezerra, anos depois vieram a Neuma Bezerra, Antonilda e outras.
  Na comunidade de Rancho do Povo tem água encanada para os moradores, proveniente de um poço profundo artesiano e luz elétrica, sendo uma rede monofásica e outra trifásica.
  As pessoas ficam curiosas para saber o motivo de chamarem o Rancho do Povo de Quebra. O motivo é que, na época em que transportavam cargas em comboios de animas, estava passando uma carga de rapadura, quando uma égua caiu em um buraco e quebrou um quarto. E daí, começaram a se referirem aquele local de quebra-égua. Por isso a razão de chamarem de Quebra.
Povoado de Estivado
  Estivado é um povoado pertencente ao distrito de Martinslândia a aproximadamente, 30 km da sede do município de Guaraciaba do Norte e a 18 km da sede do município de Ipú.
Antigamente Estivado era uma terra de mata virgem. Nos seus primórdios era quase desabitada com apenas três casas, uma de tijolos crus e duas de taipas.
  A origem do nome é um pouco obscuro, no entanto, alguns dizem que inicialmente era Estivas passando para Estivado, devido o local possuir um terreno acidentado repleto de lajeiros e água nos períodos chuvosos, sendo preciso colocar revestimentos de varas para as pessoas poderem passar, isto é, colocando uma espécie de ponte.
  Os primeiros moradores foram Francisco Benedito, Francisco Leitão e Gonçala Rosa.
  Estivado se divide em duas partes, um é Guaraciaba do Norte e o outro é Ipú, portanto é divisa dos dois municípios. Essa divisão é feita por uma estrada conhecida por Mascarém, que começa na Matriz de São Gonçalo, município de Ipueiras, passa por Estivado, dividindo Ipú e Guaraciaba, terminando no Poço, município de Ipú.
  Estivado foi crescendo e aparecendo novos moradores, novos donos de terras, como Tarcísio Marques, Francisco Antero, Joaquim Benedito, seu Del e outros. E hoje a população continua aumentando. A comunidade abriga 23 famílias, foi formada uma associação de moradores com o objetivo de trazer energia elétrica ao local e em 1995 foi inaugurada a luz de Estivado, na administração do governo municipal Dr. Egberto Martins. Em seguida foi construída passagens molhadas e as estradas foram melhoradas.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

O POVOAMENTO DO ESPAÇO CEARENSE

  • Com uma colonização portuguesa complexa e conturbada, marcada pela resistência dos nativos e pelas dificuldades de adaptação dos portugueses às condições particulares do território, formou-se uma sociedade rural baseada, sobretudo na pecuária, assim como na agricultura, em especial nos vales úmidos e serras.
    A elite latifundiária, através de seu poder econômico e de complexas relações de parentesco e afilhadagem, possuía controle de quase todos os aspectos da vida social. Os "coronéis" mantinham em suas propriedades muitos dependentes que lhes prestavam serviços ou entregavam parte de sua produção em troca da posse de um lote de terra, em regime praticamente semifeudal, além de trabalhadores assalariados. A escravidão africana, embora de menor importância, foi praticada ao longo de séculos, principalmente nas áreas onde a agricultura floresceu.
    O desenvolvimento independente do Ceará começaria apenas depois de sua separação de Pernambuco em 1799, e sua história foi sempre marcada por lutas políticas e movimentos armados. Essa instabilidade prolongou-se durante o Império e a Primeira República, normalizando-se depois da desconstitucionalização do País em 1945.
    As secas, os conturbados fatores sociais e econômicos do Estado acarretaram eventos importantes na história desse povo, como o cangaço, os movimentos messiânicos, a emigração para à Amazônia e para outros Estados, inclusive os do Sudeste do Brasil. Historicamente um dos locais mais miseráveis do País, o Ceará tem passado por grandes transformações desde a década de 1950, progressivamente se tornando um Estado predominantemente urbano, mais industrializado e com crescente desigualdade regional e de renda.
    Forte de São Sebastião
    Era Colonial
     As terras atualmente pertencentes ao Ceará foram doadas, em 1535, a Antônio Cardoso de Barros, mas este não se interessou em colonizá-las e nem sequer chegou a visitar a capitania, embora tivesse ocupado o cargo de provedor-mor da Bahia no governo geral de Tomé de Sousa. Cardoso de Barros, inclusive, faleceu em 1556, ao lado do primeiro bispo do Brasil dom Pero Fernandes Sardinha, devorado pelos índios Caetés, após um naufrágio na costa de Alagoas (por: Farias Airton de).
    A primeira tentativa séria de colonização portuguesa ocorre com Pero Coelho de Sousa, que lidera a primeira bandeira feita em 1603, demonstrando por isso certo interesse de Portugal em colonizar o Ceará.
     A missão dos bandeiristas era explorar o rio Jaguaribe, combater piratas, "fazer a paz" com os indígenas e tentar encontrar metais preciosos. Partindo da Paraíba, à frente de 200 índios "mansos" (já submissos ao conquistador) e de 65 soldados (entre os quais o jovem Martim Soares Moreno), Pero Coelho atingiu pelo litoral a serra de Ibiapaba, onde travou combate com os índios Tabajaras e alguns franceses, então aliados.
    Derrotando os adversários, Pero Coelho tentou seguir para o Maranhão, mas só atingiu o rio Parnaíba (Piauí), pois seus homens, cansados, maltrapilhos e famintos recusaram-se a prosseguir viagem. De retorno ao litoral, o capitão-mor fundou o Forte de São Tiago, às margens do Rio Ceará e o povoado de Nova Lusitânia. Ficou ali pouco tempo. Os índios, ressentidos com o comportamento brutal dos "civilizados" europeus passaram a atacar o Fortim. Pero, então, retirou-se para o rio Jaguaribe, construindo nas margens deste o forte de São Lourenço.
    Contudo, a pesada seca de 1605 a 1607 (a primeira registrada pela historiografia local) e os persistentes ataques indígenas levaram Pero Coelho a deixar o Siará em dolorosa caminhada, na qual pereceram de fome e sede alguns soldados e seu filho mais velho. Dirigindo-se ao forte do Reis Magos no rio Grande do Norte e depois Paraíba e Europa, Pero Coelho faleceu em Lisboa, pobre, após tentar cobrar de Portugal os pagamentos pelos serviços prestados nas terras cearenses. Fracassava, assim, a tentativa pioneira de ocupação do "Ceará Grande". (Por: Farias de Airton; Historia do Ceará; p. 14 e 15).
    Diante do fracasso de Pero Coelho de conquistar as nações indígenas, em 1607 foi enviado os padres Jesuítas Francisco Pinto e Luís Figueira com o intuito de evangelizar os sivícolas. Estes avançaram até a Chapada da Ibiapaba, onde ficou até a morte do padre Francisco Pinto em outubro do mesmo ano.
    O padre Luís Figueira retorna para o Rio Grande do Norte. Posteriormente, relatou sua empreitada em Relação do Maranhão, o primeiro texto escrito sobre o Ceará. Figueira, todavia, não foi muito feliz no relacionamento com os nativos brasileiros. Anos depois, em 1643, vítima de um naufrágio na Ilha de Marajó, foi morto e devorado pelos índios Aruás.
     Em 1612, sob o comando de Martim Soares Moreno (considerado posteriormente o "fundador" do Ceará), foi construído, às margens do Rio Ceará, o Forte de São Sebastião, local conhecido atualmente como Barra do Ceará (divisa entre os Municípios de Fortaleza e Caucaia).
     A colonização portuguesa da região, iniciada no século XVII, foi dificultada pela forte oposição das tribos indígenas e as invasões de piratas europeus. O estabelecimento europeu só tomou impulso com a construção, na embocadura do riacho Marajaitiba, do forte holandês Schoonenborch, que em 1654, foi tomado pelos portugueses e passou a ser chamado Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção.
    Em volta dessa Fortaleza formou-se a segunda vila do Ceará, a vila do Forte, ou Fortaleza. Depois de muita disputa política entre Aquiraz e Fortaleza, a última passou a ser a capital do Ceará, oficialmente a partir de 13 de abril de 1726 (Data em que se comemora o aniversário da cidade). 
    Houve duas frentes de ocupação portuguesa do território cearense: a do sertão-de-fora, controlada por pernambucanos que vinham pelo litoral; e a do sertão-de-dentro, dominada por baianos. Graças à pecuária e aos deslocamentos de pessoas das áreas então mais povoadas, praticamente todo o Ceará foi ocupado ao longo do tempo, levando ao nascimento de várias cidades importantes nos cruzamentos das principais estradas utilizadas pelos vaqueiros, como Icó.
    Ao longo do século XVIII, a principal atividade econômica cearense foi a pecuária, levando muitos historiadores a falarem que o Ceará se transformou em uma "Civilização do Couro", pois a partir do couro se faziam praticamente todos os objetos necessários à vida do sertanejo através de um rico artesanato.
    O comércio do charque foi decisivo para a vida econômica do Ceará ao longo do século XVIII e XIX. Com ele passou a existir uma clara divisão do trabalho entre as regiões do Estado: no litoral se encontravam as charqueadas e, no sertão, as áreas para criação de gado bovino. O charque também permitiu o enriquecimento de proprietários de terras e de comerciantes, bem como o surgimento de um pequeníssimo mercado interno local.
    Durante o auge do comércio do charque, a principal cidade cearense foi Aracati, de onde eram exportadas, mas também floresceram outros centros regionais, como Sobral, Icó, Acaraú, Camocim e Granja. A era do charque se finda depois das secas de 1790/93, que devastam o estado e impossibilitam a continuação da pecuária cearense. Com este evento a produção do charque mudou para o Rio Grande do Sul. 
    Outras cidades nasceram a partir de aldeamentos indígenas, onde os nativos eram confinados sob o controle de jesuítas, responsáveis por sua catequização e aculturação. Este foi o caso de cidades importantes como Caucaia (outrora chamada Soure), Crato, Pacajus, Messejana e Parangaba (as duas últimas atuais bairros de Fortaleza).
    Os indígenas cearenses foram, em sua maior parte, massacrados, embora tenham resistido até os dias de hoje. Um dos maiores exemplos de sua resistência foi a Guerra dos Bárbaros, na qual indígenas de diversas tribos (Kariri, Janduim, Baiacu, Icó, Anacé, Quixelô, Jaguaribara, Kanindé, Tremembé, Acriú, etc.) se uniram para lutar contra os conquistadores portugueses, resistindo bravamente durante quase 50 anos.
    O Ceará torna-se administrativamente independente de Pernambuco em 1799. Nas décadas anteriores, o cultivo do algodão começou a despontar como uma importante atividade econômica, gerando um período de prosperidade para a capitania. Com a recuperação da cotonicultura dos Estados Unidos da América, o algodão e o próprio Ceará entrou em crise, o que explica o envolvimento de cearenses na Revolução Pernambucana de 1817 e na Confederação do Equador.
    Movimentos independentistas e Império
    O século XIX também foi marcado por alguns movimentos revolucionários e conflitos. Em 1817, alguns cearenses, liderados pela família Alencar, apoiaram a Revolução Pernambucana. O movimento, no entanto, ficou restrito ao Cariri e, especialmente, à cidade do Crato, e foi rapidamente sufocado. Em 1824, já após a independência, os mesmos ideais republicanos e liberais apareceram num movimento mais amplo e organizado: a Confederação do Equador.
    Aderindo aos revoltosos pernambucanos, várias cidades cearenses, como Crato, Icó e Quixeramobim, demonstraram sua insatisfação com o governo imperial. Após choques com o governo provisório controlado pelo Imperador Dom Pedro I, foi estabelecida a República do Ceará em 26 de agosto de 1824, tendo Tristão Alencar como presidente do Conselho que governaria a província.
    A forte repressão das forças imperiais, no entanto, derrotou rapidamente o movimento rebelde devido a diversos motivos: a superioridade militar das tropas do governo imperial; a pouca participação popular; as principais lideranças terem sido presas ou mortas.
     Outro conflito que se destacou na história cearense foi a Sedição de Pinto Madeira, um violento conflito entre a vila do Crato, liderada por liberais republicanos (com maior destaque para a família Alencar), e a de Jardim, praticamente dominada por Pinto Madeira, de caráter absolutista e autoritário.
    As duas elites locais disputavam pelo controle político do Cariri cearense. Por fim, os cratenses contrataram o mercenário francês Pierre Labatut e, reagindo com um exército formado por sertanejos humildes, renderam os jardinenses. Pinto Madeira foi julgado sumariamente no Crato, após ser considerado culpado pela morte do liberal José Pinto Cidade.
     Também no século XIX, o Ceará sofreu um verdadeiro boom econômico durante o período da Guerra de Secessão (1861-1865) nos EUA, que, afetando a cotonicultura norte-americana, abriu o mercado mundial para o algodão cearense.
    Foi nesse período que Fortaleza desbancou Aracati do posto de cidade principal do Ceará: o algodão substituía o charque em importância econômica. Porém, a Grande Seca (1877/78/79), interfere na agricultura do algodão, Fortaleza foi invadido pelas vítimas da estiagem, uma grande parte da população cearense emigra para a Amazônia e assim contribui no boom do primeiro Ciclo da Borracha. E a partir desta seca o Ceará passa a ser fator de atenção dentro da política nacional.
    Depois do outro período de seca o Império iniciou projetos sociais e de infraestrutura (Açude do Cedro), para amenizar as consequências das estiagens, fato que resultou com criação da Comissão de Açudes e Irrigação (atualmente DNOCS).
    No século XIX, um movimento de grande importância aconteceu no Ceará: a campanha abolicionista, que aboliu a escravidão no estado em 25 de março de 1884, antes da Lei Áurea, que é de 1888. Foi, portanto, o primeiro estado brasileiro a abolir a escravatura. Dentro do Ceará, o primeiro município a abolir a escravatura foi Acarape, que depois do evento, passou a ser chamado de Redenção.
    O abolicionismo foi favorecido pela pouca importância da escravidão na economia cearense relativamente às outras regiões do Brasil. Contou com o apoio da Maçonaria e até mesmo de grupos formados por mulheres da elite do Estado. Além da pequena quantidade de escravos, quando da campanha abolicionista, muitos escravos eram vendidos para o trabalho em outras províncias com maior demanda de trabalho compulsório.
    Pela grande dificuldade em atracar navios, devido ao mar bravio, a capital cearense era um péssimo ancoradouro, o que fazia dos jangadeiros um elemento de suma importância para a economia local, já que o embarque e desembarque no porto de Fortaleza tinha que ser feito por meio de embarcações pequenas e insubmersíveis conhecidas como jangadas, e a forte campanha abolicionista, em 1881, convenceram os jangadeiros cearenses a não mais realizar o transporte de escravos para terra firme. Sob o lema
    "No Ceará não se embarcam mais escravos", o movimento, comandado pelo jangadeiro Francisco José do Nascimento, o "Dragão do Mar", hoje nome de um centro cultural da cidade de Fortaleza, ganhou significativa simpatia da população cearense.
    República Velha
    Após a proclamação da República no Brasil, em 1889, o quadro político-econômico do Ceará começou a se transformar. Alguns anos depois, teria início à poderosa oligarquia acciolina, que recebeu esse nome por ser comandado pelo comendador Antônio Pinto Nogueira Accioli, que governou o estado de forma autoritária e monolítica entre 1896 e 1912.
    A situação de desesperadora miséria e abandono social era uma marca profunda do Ceará nessa época, o que levou ao surgimento de diversos movimentos messiânicos ao longo do século XIX e XX, tendo como líderes religiosos Antônio Conselheiro (que formaria na Bahia o arraial de Canudos), Padre Ibiapina, Padre Cícero, Beato Zé Lourenço, etc. Surgiu também outro meio de escapar da miséria: o cangaço. Muitos homens formaram grupos de cangaceiros que saqueavam vilas, assaltavam e amedrontavam a todos.
     Além desses eventos em 1896 começou a ser construída a ferrovia Sobral-Crateús por Antônio Sampaio Pires Ferreira, onde logo se estabeleceria em suas margens a cidade de Pires Ferreira.
    O século XX, para o Ceará, foi marcado pelos ciclos de poder dos "coronéis" e por enormes transformações de ordem social e econômica. O século se iniciou no contexto da oligarquia acciolina, comandada, direta ou indiretamente, por Nogueira Accioli de 1896 a 1912. Durante esse período, a família Accioli controlou, literalmente, todas as esferas do poder cearense, desde os altos escalões do Governo estadual até as delegacias.
    Então se vivia uma conturbada e violenta campanha eleitoral no Ceará, graças ao Salvacionismo pretendido pelo presidente Hermes da Fonseca, que procurava enfraquecer as oligarquias regionais contrárias ao seu poder. Dentro da política das Salvações, foi lançada a candidatura de Franco Rabelo para o governo, enquanto Accioli apontava como seu candidato Domingos Carneiro. Em Fortaleza, houve uma passeata de crianças em favor de Franco Rabelo, a qual foi repreendida duramente pelas forças policiais, causando a morte de algumas crianças e ferindo outras tantas.
    Em consequência, a população fortalezense se revoltou contra o governo, mergulhando a capital em verdadeiro estado de guerra civil durante três dias. Accioli teve, então, que renunciar ao governo cearense, tendo como garantia o direito de permanecer vivo e poder fugir do Estado. Franco Rabelo foi eleito para governar o Ceará logo em seguida, mas acabou sendo deposto por outra revolta, a Sedição de Juazeiro, entre 1913 e 1914.
    Juazeiro do Norte era uma cidade recém-emancipada do Crato. Seu surgimento se deveu ao carismático Padre Cícero, que, após ter ficado famoso devido ao suposto milagre da Beata Maria de Araújo (cuja hóstia teria se transformado em sangue), conquistou uma imensa massa de sertanejos pobres e religiosos.
    Muitos passaram a morar em Juazeiro, de modo que em pouco tempo o local possuía milhares de moradores. Como não tinha o apoio da alta hierarquia católica, Padre Cícero procurou evitar que Juazeiro tivesse o mesmo fim trágico de Canudos e aliou-se ao poder político dos coronéis, posicionando-se ao lado da oligarquia de Nogueira Accioli. Embora mantendo a proximidade com o povo, o padre tornou-se, para alguns, um "coronel de batinas".
    Franco Rabelo havia, em pouco tempo, perdido o apoio de muitos políticos que o haviam ajudado a chegar ao poder - a Assembleia Legislativa tentou até mesmo, sem sucesso, votar o impeachment do "salvacionista".
    Os oposicionistas tentaram, então, convocar extraordinariamente a Assembleia Legislativa em Juazeiro e cassaram o mandato de Rabelo. Este, que tinha ainda bastante apoia em Fortaleza, mandou tropas para Juazeiro do Norte, pretendendo derrotar os golpistas.
    Os sertanejos, incitados pelo Padre Cícero e pelos coronéis, acreditaram ser aquela uma agressão contra o "Padim Ciço". Iniciou-se um verdadeiro clima de guerra santa em Juazeiro. Após meses de combate, os seguidores de Padre Cícero venceram as tropas de Rabelo e iniciaram uma longa marcha até Fortaleza, obrigando Rabelo a renunciar ao governo cearense.
    Após a Sedição de Juazeiro, estabeleceu-se certo equilíbrio entre as oligarquias cearenses, não havendo mais conflitos militares entre elas. O povo, no entanto, continuou reprimido e sem voz.
    Estado Novo
    A situação política no Ceará se modificaria bastante com a Revolução de 1930, que levou ao poder Getúlio Vargas. Durante 15 anos, governaram o Estado interventor do Governo Federal. O primeiro interventor no Ceará foi Fernandes Távora, mas ele governou por pouco tempo, pois continuou com as práticas clientelistas e corruptas da República Velha.
    Os interventores não tardaram a se acomodar com as elites locais. O quadro político cearense esteve, nesse período, influenciado por duas associações: a Liga Eleitoral Católica (LEC), que, por seus vínculos religiosos e apoio dos latifundiários interioranos, obteve grande penetração no eleitorado cearense e apoiou segmentos fascistas que organizaram a Ação Integralista Brasileira (AIB) no Ceará; e a Legião Cearense do Trabalho (LCT), organização operária conservadora, corporativista, anticomunista e antiliberal (na prática, fascista) que existiu no Ceará entre 1931 e 1937.
    A LCT, após o exílio de seu líder Severino Sombra por ter apoiado a Revolução Constitucionalista de São Paulo em 1932, foi perdendo poder. Ao voltar do exílio, Sombra abandonou a LCT e fundou a Campanha Legionária, mas não teve sucesso, pois a Igreja prestava agora apoio à AIB e começavam a surgir entidades operárias de esquerda no Estado. Em 1937, por fim, todas as associações de orientação fascista (LCT, AIB e Campanha Legionária) foram extintas pelo Estado Novo de Getúlio Vargas.
     Durante a seca de 1915 e, novamente na estiagem de 1932, foram criados campos de concentração no Ceará. O objetivo destes, era impedir que retirantes fugindo da seca e da fome, chegassem às grandes cidades. Estes locais de confinamento eram conhecidos como os currais do governo.
    Um importante movimento social no período varguista foi o Caldeirão. De forma semelhante a Canudos, ele reuniu cerca de 3 mil pessoas sob a liderança do beato Zé Lourenço, paraibano que chegara a Juazeiro por volta de 1890 e era seguidor de Padre Cícero.
    Aconselhado por Padre Cícero a se estabelecer na região e trabalhar com algumas das famílias de romeiros, arrendou um lote de terra no sítio Baixa Danta, em Juazeiro do Norte. O sítio prosperou e começou a desagradar à parte da elite, sendo difamado pelos adversários políticos de Padre Cícero. Isso culminou na exigência do dono do sítio Baixa Danta de que os camponeses e o beato deixassem a terra.
    Instalando-se no sítio Caldeirão, no Crato, propriedade de Padre Cícero, os camponeses formaram uma pequena sociedade coletiva e igualitária, prosperando tanto que chegaram a vender os excedentes nas cidades vizinhas. O sítio tornou-se, portanto, um "mau exemplo" para os sertanejos e desagradou fortemente à Igreja e aos latifundiários que perdiam a mão-de-obra barata. As difamações culminaram com a acusação de que o beato Zé Lourenço era agente bolchevique!
    Quando Padre Cícero morreu, em 1934, as terras foram herdadas pelos padres salesianos, e os camponeses do Caldeirão ficaram desamparados. Em setembro de 1936, a comunidade é dispersa e o sítio é incendiado e bombardeado. Zé Lourenço e seus seguidores rumaram, então, para uma nova comunidade. Alguns dos moradores, no entanto, resolveram se vingar e realizou uma emboscada, matando alguns policiais, o que foi respondido com um verdadeiro massacre de camponeses pelos contingentes policiais (estima-se entre trezentos e mil mortos).
     O início dos anos 1940, no Ceará, foi influenciado pela Segunda Guerra Mundial e as implantações decorridas pelos Acordos de Washington. Em Fortaleza, foi montada uma base norte-americana, mudando os hábitos locais e empolgando a população, que passou a realizar diversos atos, manifestos e passeatas contra o nazismo.
    O Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia - SEMTA foi criado e teve sua sede em Fortaleza. Este realizou uma forte propaganda governamental a qual estimulava os sertanejos a migrar para a Amazônia, onde estes se tornaram os Soldados da Borracha do Exército da Borracha, isto é, explorariam o látex das seringueiras.
    Milhares de cearenses emigraram para o Norte, muitos dos quais morreram. Porém, estas mortes não foram em vão, já que, graças aos soldados da borracha e sua mais-valia, os Estados Unidos e Aliados puderam combater os exércitos do Eixo sem os seringais da Ásia para abastecê-los.
     A luta contra o nazismo e o posicionamento contraditório do governo brasileiro (uma ditadura de base fascista dentro do País lutando contra regimes autoritários fascistas no exterior) precipitou a derrocada do Estado Novo.
    Formaram-se os diversos partidos novos, como a UDN, o PSD, o PCB e o PSP. A UDN e o PSD, partidos conservadores e elitistas, dominariam o cenário político cearense pelas próximas décadas, enquanto o PSP, chefiado por Olavo Oliveira, seria, ao menos nos anos 1950, o "fiel da balança" nas disputas eleitorais. O primeiro governador após a redemocratização foi Faustino Albuquerque, da UDN. Vale lembrar que, apesar de todas as transformações políticas, o Ceará era então um dos locais mais miseráveis do Brasil.
    República Nova
    O período de República Nova no Ceará tem início com a eleição de Faustino de Albuquerque pela UDN. Durante seu governo, nas eleições de 1950, o candidato udenista a presidência, Eduardo Gomes, obteve a maior votação colocando Getúlio Vargas em 3º colocado no estado. Para a direção do governo estadual é eleito Raul Barbosa que foi um dos reesposáveis, junto com os parlamentares cearenses, pela campanha de obtenção da sede do Banco do Nordeste do Brasil, fundado em 1952, para Fortaleza. No mesmo ano o governo federal inaugurou oficialmente o Porto do Mucuripe. Em seu entorno foram instalados usinas termoelétricas para dotar Fortaleza de energia elétrica em abundância.
     Durante a década de 1950 surgiram ou se fortaleceram vários dos maiores grupos econômicos do Ceará: Deib Otoch, J. Macêdo, M. Dias Branco, Grande Moinho Cearense e Edson Queiroz. Paulo Sarasate foi o terceiro governador eleito no período. Ainda na década de 1950 tem início uma nova onda migratória para vários estados e regiões. Em uma década, entre 1950 e 1960, o estado decaiu a taxa de representação da população brasileira, de 5,1% para 4,5%. Em 1955 a cearense Emília Barreto Correia Lima foi eleita Miss Brasil.
    Em 1958 foi eleito Parsifal Barroso que teve a ajuda do governo federal para combater as mazelas decorrentes de secas, sendo a principal obra o Açude Orós inaugurado em 1961. Em Fortaleza foi inaugurado o Cine São Luís. O governador inicia a construção da nova sede do governo, o Palácio da Abolição, em 1962 e no mesmo ano é criado o Banco do Estado do Ceará (BEC).
     Em 1963 Virgílio Távora foi eleito governador do Ceará. Seu mandato foi até o fim em 1966, mesmo com o surgimento da Ditadura militar em 1964. Seu governo foi marcado pela criação do "PLAMEG I" - Plano de Metas do Governo que visou à modernização da estrutura do estado com a ampliação do porto do Mucuripe e a transmissão da energia de Paulo Afonso. Foi criado ou instalado também em seu governo o Distrito Industrial de Maracanaú, o BEC, a CODEC e da Companhia DOCAS do Ceará. Com o AI-2, Virgílio aderiu à ARENA, e seu vice Figueiredo Correia ao MDB. 
    Governo militar
     Plácido Castelo foi eleito pela Assembleia Legislativa em 1966. Durante seu governo houve perseguição política a deputados e várias manifestações com a prisão e tortura de estudantes e trabalhadores, tendo ocorrido inclusive atentados à bomba em Fortaleza. Criado o BANDECE e a pavimentação da rodovia CE-060, a rodovia "do algodão". Também tem início as obras do estádio Castelão.
     Durante o governo de César Cals se sucedeu o auge da repressão militar. Vários cearenses de esquerda estiveram envolvidos na Guerrilha do Araguaia. Cals procurou governar tecnocraticamente, formando sua própria facção política rompendo com Virgílio Távora. Seu sucessor, Adauto Bezerra (mandato de 1975 a 1978) não acontecem grandes mudanças. Adauto volta-se politicamente para o interior com a criação de uma secretaria de assuntos municipais. Renuncia seu mandato para se eleger deputado federal. O vice-governador Waldemar Alcântara toma posse e termina o mandato.
     Virgílio Távora retorna ao governo em 1979 sendo o último eleito indiretamente e resgata seu primeiro governo com a criação do PLAMEG II. Inicia a industrialização da região noroeste do Ceará e cria o PROMOVALE (projetos de irrigação) e sua esposa, a primeira dama Luiza Távora implementa projetos sociais como a Central de Artesanato do Ceará. Seu governo foi marcado pela ausência, quase que total, de oposição na Assembleia, nomeações aproximadas de 16.000 pessoas para cargos públicos e várias greves.
    Gonzaga Mota foi eleito pelo voto popular tomando posse em 1983 e rompe com os coronéis anteriores para criar seu próprio grupo político. Seu rompimento rendeu-lhe ataques do regime militar com a suspensão de verbas federais.
    Nova República
    A insatisfação com a política praticada durante a ditadura militar e o movimento de redemocratização impulsionam as transformações no poder político, com a decadência da hegemonia tradicional do coronelismo. 
    Gonzaga Mota deixa o governo com pagamentos atrasados ao funcionalismo e descontrole nas contas públicas, mas seu candidato, o empresário Tasso Jereissati, consegue se eleger com a promessa de modernizar a administração pública, afastando-se do clientelismo dos governos anteriores; promover a austeridade fiscal; e desenvolver a economia estadual. A nova gestão passa a se autodenominar "Governo das Mudanças".  Nas duas décadas seguintes, Jereissati e seus aliados passam a deter a hegemonia política no Estado, e rapidamente perdem a aliança com partidos chamados de esquerdas, mas também muitíssimos corruptos, como o PT e o PCdoB comunistas.
    O Ceará recebe os primeiros carros importada da marca russa Lada. Os "Governos das Mudanças" priorizam o aumento dos investimentos públicos e privados em infraestrutura e nos setores industrial e de serviços, enquanto o agropecuário permanece à margem. Politicamente, há uma relativa diminuição de poder dos "coronéis", com ampliação do poder do grande empresariado.
    O saneamento das contas estaduais - atingido, em parte, pela diminuição das despesas com o funcionalismo público através de demissões e achatamentos salariais - garantem superávits entre 1988 e 1994, mas com a consolidação do Plano Real volta-se a uma predominância de déficits.
    O Estado se beneficia também da guerra fiscal que então se iniciava o que, somado à mão-de-obra barata, atrai várias indústrias, as quais se concentram em algumas poucas cidades. O crescimento médio do PIB, de 4,6%, é superior à média nacional e nordestina nos anos 1990, continuando a tendência iniciada na década de 1970. As ações do governo, aliado aos esforços do empresariado local, e os incentivos de instituições de grande importância na história econômica recente do Ceará, como o BNB e a SUDENE, foram determinantes para tal desempenho.
     O forró eletrônico se populariza na década de 1990, e o Ceará começa a despontar, seguindo a tendência do litoral nordestino, como um grande polo de turismo no Brasil. Ao longo dos anos 1990, com ações como o Programa de Saúde da Família (PSF), o Estado também realiza grandes avanços na redução da mortalidade infantil. A migração em direção a Fortaleza segue forte, tendo em vista o persistente atraso do interior em comparação com o forte crescimento da capital. A segurança pública torna-se muito mais problemática entre 1990 e 2003, com a taxa de homicídios subindo de 8,86 para 20,15 por 100 mil habitantes, um aumento de 127%.
    O estado do Ceará mesmo com todas as promessas políticas, mais de 90% de seus municípios continua sem infraestrutura, como rede de esgoto e até mesmo agua encanada, apenas as cidades praianas tiveram poucas mudanças, mas o saneamento básico deixa muito a desejar. O crime e a corrupção política tomou conta do estado do Ceará.
    Mais historia,

     

    Brasão

    Bandeira do Ceará

    Segundo historiadores, as expedições do espanhol Vicente Pinzon e de Diogo Lepe desembarcaram nas costas cearenses antes da viagem de Cabral ao Brasil. A primeira, num cabo identificado como o da Ponta Grossa, no Município de Icapuí, e a segunda, na Barra do Ceará, em Fortaleza. Tais descobrimentos não puderam ser oficializados devido ao Tratado de Tordesilhas.

    A ocupação efetiva do território cearense começou em 1603 com a bandeira de Pero Coelho de Souza que fundou o Forte de São Tiago, na Barra do Ceará. A posse oficial do Ceará deu-se com Martins Soares Moreno, (o Guerreiro Branco), que aqui chegou em 20 de janeiro de 1612 e fundou o forte de São Sebastião, no antigo local onde fora erguido o Forte de São Tiago.

    Em 1637 chegam os holandeses que domina durante sete anos. Em 1644 foram expulsos pelos índios com a destruição do Forte de São Sebastião. Após cinco anos de sua retirada os holandeses voltaram ao Ceará comandado por Matias Beck, na ocasião em que ergueram o Forte Shoonemborch, às margens do Rio Pajeú, de onde se originou a cidade de Fortaleza. A explosão definitiva dos holandeses ocorreu em 1654 pelo comandante português Álvaro de Azevedo Barreto, que muda o nome do Forte para Nossa Senhora da Assunção.

    A criação do município de Fortaleza se deu a 13 de abril de 1726, quando a povoação do Forte foi levada à condição de vila. Somente em 1823 o Imperador Dom Pedro I elevou a vila à categoria de cidade. Durante o Segundo Império, o Intendente Antônio Rodrigues Ferreira e o Arquiteto Adolfo Hebster realizaram obras urbanísticas transformando Fortaleza em uma das principais cidades do país. Atualmente, o Estado do Ceará é composto por 184 municípios com autonomia político-administrativa.

    A história de Fortaleza se confunde largamente com a história do Ceará, terra de índios dos troncos tupi (tabajaras, parangabas, parnamirins, paupinas, caucaias, potiguaras, paiacus, tapebas) e jê (Tremembé, guanacés, Jaguaruana, Canindé, jenipapos, baturités, icós, chocós, quiripaus, cariris, jucás, quixelôs, inhamuns), os quais, embora dizimados em grande parte, fazem sua cultura estar presente até a atualidade, em hábitos, comida, medicina e arte populares, nomes, vocabulário e etnia.

    Foi em 1884 que se fez a abolição da escravatura no Ceará, quatro anos antes do dia 13 de maio da abolição brasileira. Este fato lhe valeu o nome dado por José do Patrocínio de Terra da Luz, e fez aumentar os ânimos de todos os abolicionistas do Brasil. Até Victor Hugo mandou da França suas saudações aos cearenses.

    Provavelmente, foi Américo Vespúcio o primeiro europeu a passar ao longo da costa cearense, em meados de 1499, quando percorria todo o litoral norte do Brasil, a partir do cabo Santo Agostinho no Rio Grande do Norte. Dois meses antes de Pedro Álvares Cabral partir de Lisboa, o navegador espanhol Vicente Yañez Pinzón, num roteiro semelhante a Américo Vespúcio, desembarcou no litoral cearense, no cabo do Mucuripe em Fortaleza, conforme alguns, ou no cabo de Ponta Grossa em Aracati, conforme outros.

    Na primeira década, após o descobrimento do Brasil, o Ceará estava exposto à sorte de piratas franceses, e continuando sob domínio dos nativos, tupis à beira-mar e jés (ou tapuias) no interior. Em 1534, a coroa portuguesa, no intuito de marcar o domínio das terras descobertas, implantou o sistema de capitanias no Brasil, e em 1535 concedeu a Antônio Cardoso de Barros a Capitania do Siará, que nunca se importou em tomar posse desse feudo. No entanto, desempenhou na Bahia o cargo de provedor-mor e, em 1556, ao retornar para Portugal, teve a má sorte de o navio naufragar nas costas de Alagoas e ser devorado pelos índios, junto com o bispo D. Pero Fernandes Sardinha.

    O Ceará voltou a entrar na história em 1603, em pleno domínio espanhol de Felipe III, quando Pero Coelho de Sousa obteve do governador geral Diogo Botelho a permissão de colonizar o Siará Grande, partindo do Rio Grande do Norte. Chamou a colônia de Nova Lusitânia e o arraial projetado na foz do rio Ceará de Nova Lisboa, a atual região da Barra do Ceará. Aventurou-se com seus soldados e ajuda de índios tabajaras e potiguara sertão adentra e enfrentou os franceses liderados por Adolphe Membille que, a partir do Maranhão invadiram o sul. Deteve-os às margens do rio Parnaíba. Por falta de recursos e a primeira forte seca, de que se tem notícia nesta região, retirou-se em 1607 para a Paraíba.

    No mesmo ano, os padres Francisco Pinto e Luís Filgueiras iniciaram seus trabalhos de catequese dos índios na região, com relativo sucesso. Na trilha de Pero Coelho de Sousa atravessaram o território de leste a oeste, até chegarem à serra da Ibiapaba, onde fundaram um povoado, logo atacado por índios tocarijus, morrendo Francisco Pinto a tacape. Luís Filgueiras, junto com um punhado de índios fiéis, retirou-se para as proximidades da foz do rio Ceará, fundando outro povoado, o de São Lourenço. Temendo a agressão de índios, no entanto, em agosto de 1608 se retira, para retornar a Pernambuco, e mais tarde, após naufrágio na ilha de Marajó, foi outro devorado a ser devorado pelos nativos.

    É Martins Soares Moreno que pode ser considerado o verdadeiro fundador do Ceará. Jovem soldado sob ordens de Pero Coelho de Sousa destacou-se pela amizade que matinha com os índios, imitando seus costumes. Chegou de volta ao Ceará no início de 1612, em companhia do padre Baltazar João Correia e seis soldados construiu um pequeno forte, chamado de São Sebastião, novamente, na foz do rio Ceará. Após combates com os franceses no Maranhão e tentativas rechaçadas de invasão dos holandeses, foi a Portugal e obteve em 1619 a carta régia como senhor da Capitania do Siará, aonde voltou em 1621, para fixar-se por vários anos, consolidando e fazendo florescer sua capitania. Os amores de Martins Soares Moreno por uma índia serviram de tema para o romance Iracema, de José de Alencar, escritor cearense.

    Os holandeses de Pernambuco, que já tinham colocado sob seu domínio as regiões até o Rio Grande do Norte, em 1637 desembarcaram no Mucuripe (atual região do porto de Fortaleza), sediando e tomando o forte na foz do rio Ceará, do qual foram expulsos pelos próprios índios em 1644. Voltaram em 1649 sob ordens de Matias Beck. Construíram na enseada do Mucuripe, junto ao rio Pajeú, uma fortificação, à qual deram o nome de Schoonenborch, em homenagem ao seu governador em Pernambuco. O forte tornou-se centro de atividades militares e dos trabalhos de exploração das minas de prata na serra de Maranguape.
    Em 1654, no entanto, os holandeses foram expulsos do Brasil pelos portugueses e, assim, também entregaram o forte a eles, mudando o nome, na época em que o português Álvaro de Azevedo Barreto foi capitão-mor do Ceará, para Fortaleza da Nossa Senhora da Assunção, dando origem ao futuro nome da capital cearense. O forte, construído em madeira, se manteve de reforma, até 1812, quando outro, de alvenaria, o substituiu. O povoado que começou a florescer em volta, se desenvolveu gradativamente para a cidade de Fortaleza. A vila de Fortaleza foi instalada em abril de 1726 e tornou-se cidade, por ordem régia, em 17 de março de 1823, com o nome de Fortaleza de Nova Bragança.

    Nessa primeira fase da história cearense, o pouco desenvolvimento regional se manteve na orla marítima, baseado no plantio da cana-de-açúcar. Porém, informados das excelentes pastagens e do bom clima dos sertões do Ceará, aventureiros de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Bahia começaram a ocupar os espaços, expulsando os índios ou, quando possível, domesticando-os para o trabalho, instalando currais, logo oficializado como sesmarias.

    Assim, a partir da última década do século XVII, durante aproximadamente quarenta anos, acelerou-se a interiorização, a partir duma economia essencialmente pecuarista. Os currais se transformaram gradativamente em fazendas. O boi virou grande moeda da época, garantindo a alimentação e subprodutos baseados no seu couro, como roupa, sapato, chapéu, gibão e perneira. Os rebanhos eram objeto de largo comércio com Pernambuco, de onde vinham tecidos, louças, ferramentas e outras utilidades indispensáveis para a vida nas fazendas.

    Mais tarde em vez de transportar o boi pelas suas próprias pernas, a experiência demonstrou ser mais fácil abatê-lo no seu lugar de origem, salgar-lhe a carne e transportá-lo para os centros de consumo, originando, assim, um intensivo comércio com a zona açucareira de Pernambuco. O boi era transportado para as cidades portuárias, abatido, salgado e despachado, transformando os portos de Aracati, Acaraú e Camocim nos principais da região. Este processo da carne charqueada manteve-se florescente no Ceará, até a grande seca no final do século XVIII, quando os rebanhos se aniquilaram, em consequência de três anos de ausência de chuvas.

    Assim, o Ceará, voltado para a pecuária e agricultura de subsistência, sem grandes plantações de açúcar, ouro e outras riquezas de seu tempo, atravessou obscuramente a época da colonização, encerrando sua Segunda fase histórica, dependendo sucessivamente do Maranhão, Pará e Pernambuco.
    Somente em 1799, o rei nomeou o primeiro governador, Bernardo Manuel de Vasconcelos, que instalou a capital em Aquiraz, transferida em 1810 para Fortaleza.

    Outras vilas, no entanto, começaram a se formar junto às fazendas e encruzilhadas no interior. Uma das regiões mais prósperas se tornou o Cariri, tendo como centro a vila do Crato, fundada por uma missão franciscana. Icó prosperou como entreposto comercial, entre o Cariri e o litoral. Aracati era porto de mar, por onde se exportava o couro e o charque.

    Nesta época também, e na sucessão dos próximos governadores, iniciou o comércio direto com a Europa, que antes era canalizado exclusivamente pelo porto de Recife, fato que intensificou a exportação de produtos locais. O algodão começou a fazer parte da riqueza geral e, até recentemente, de excelente qualidade, disputava os mercados europeus, tendo sido o principal produto de exportação do Ceará. Com o franqueamento dos portos brasileiros em 1808, reforçaram-se as trocas com o Reino Unido e, a seguir, com os Estados Unidos e Portugal.
    Referencia: Wikipédia